Essa semana sonhei que meu senso ético me custava o emprego, que reencontros me levavam a um casamento inesperado, que uma cripto em ruínas ainda assombrava esperanças… e que meus dentes se desintegravam como promessas malfeitas. Tem pano pra sonho? Tem conto também.
A ligação veio no meio da manhã, enquanto eu respondia uma auditoria. Era o Diretor Geral. Formal, educado — e escandalosamente indecente.
Pediu o contracheque de uma funcionária nova. Disse que ia repassar os dados pra uma empresa parceira. A moça não queria fazer empréstimo, veja só, e ele queria “ajudar” a convencê-la.
Respondi seca, quase cortante. Que se minha gerente quisesse compactuar com isso, eu transferia a ligação pra ela. Mas eu, não. Já tinha trabalhado em instituição financeira. Sabia bem o que acontecia do outro lado do balcão: promessas, pressão, empurroterapia de dívidas. Disse a ele, com todas as letras, que não ia colaborar com esse tipo de prática.
Transferi a ligação. Fui demitida, claro.
Saí triste, mas estranhamente leve. Decidi visitar a minha antiga faculdade. Anos sem pôr os pés lá. Quando cheguei, mal reconheci o lugar — parecia um shopping, reluzente e cheio de escadas rolantes. Encontrei, por acaso, um antigo professor querido. Estava com o filho pequeno, um menino doce e entusiasmado. Me reconheceu com um sorriso caloroso e, sem hesitar, me convidou para o seu casamento, que seria ainda naquele dia. O filho seria o pajem.
Ele me mostrou a foto da noiva: uma mulher morena, linda, com cabelos lisos que pareciam desenhados à mão. Pensei: que bom ver alguém começando feliz. Resolvi procurar um vestido.
Caminhando pela cidade, passei por uma construção abandonada. Os tapumes enferrujados mal escondiam as vigas soltas, os alicerces inacabados. Na frente, uma placa enorme, amarela, com a inscrição: UREA4.
Lembrei. Era o nome da cripto. Na época, prometeram o mundo. A moeda era atrelada à valorização dos imóveis — um fundo imobiliário disfarçado de inovação digital. Lançada a R$ 0,16, com promessa de chegar a R$ 3,64. Sonhavam alto, estampavam o valor-alvo na placa como quem grava um destino em pedra.
Eu comprei, claro. Com fé de quem acha que vai entrar na base da pirâmide e subir até o topo. A moeda derreteu. Deixei lá. Fundo perdido.
Enquanto encarava o escombro, vi uma mulher parada ao lado, olhando para a mesma placa. Reconheci o rosto. Era ela: a noiva do meu professor. Me aproximei com cuidado, me apresentei. Ela me recebeu com um sorriso franco e me convidou para um café.
Contou que a família dela era riquíssima, mas perdeu tudo apostando nessa mesma cripto. Me emocionei. Eu também tinha perdido, mas não tudo.
Comentei:
— E você aqui, no dia do seu casamento? Não devia estar no salão, fazendo unha, cabelo, virando princesa?
Ela sorriu com os olhos.
— Hoje é o dia da virada. A partir de agora, não penso mais no que perdi. Vou conquistar o que é meu.
Nos despedimos com afeto. Fui atrás do vestido.
Em casa, me arrumando, senti um desconforto estranho na boca. Não era dor — era como se os dentes estivessem soltos, como um móvel bambo. Levei os dedos até um deles. Saiu com facilidade. Mas não inteiro: esfarelava.
O segundo, o terceiro. Fragmentos na palma da mão. Um desmoronamento silencioso, interno. Mais de dez dentes já haviam se esfarelado. Tentei parar de tocar, mas mesmo assim eles vinham — desmanchando, caindo sozinhos.
Chamei meu filho, pedi que verificasse se existia algum veneno, algum gás, qualquer coisa que pudesse causar aquilo. Ele tentava ver, mas era difícil. Mais um se soltou. Quando tentei pegá-lo, trouxe todos os de baixo junto. Uma avalanche de cálcio e pânico.
Acordei desesperada, com a mão na boca. Os dentes estavam lá. Todos.
Mas o medo ficou. E por um segundo, pensei: Talvez fosse melhor continuar dormindo.